Naturalismo: História, Caraterísticas e Principais Obras no Brasil

Naturalismo é um movimento literário do final do século XIX no qual os escritores se concentravam em explorar as causas fundamentais das ações, escolhas e crenças de seus personagens.

Essas causas centradas na influência da família e da sociedade sobre o indivíduo – e todas as complicações que existem nelas – resultando na visão de que os fatores ambientais são o principal determinante do caráter humano.

O autor francês Émile Zola adaptou pela primeira vez o termo naturalismo para descrever um tipo específico de literatura e projetou muitas das teorias por trás do movimento.

Embora seu destaque tenha terminado por volta da virada do século 20, o naturalismo deixou um impacto contínuo, já que muitos escritores modernos incorporam características naturalistas em seu trabalho.

O naturalismo está de muitas maneiras interconectadas com o Realismo, mas o realismo é principalmente um estilo de escrita, enquanto o naturalismo é uma filosofia escrita. Vamos falar sobre o Naturalismo e, se ficar com dúvidas, é só deixar nos comentários.

A História do Naturalismo

Jules-Antoine Castagnary, um crítico de arte francês, usou pela primeira vez o termo “naturalismo” para descrever um estilo de pintura realista que se tornou popular no início da década de 1860. Émile Zola então aplicou o termo à literatura. O ensaio seminal de Zola, “The Experimental Novel”, publicado em 1880, apresenta um exame detalhado do romance como uma forma de arte literária naturalista preeminente.

Zola apresentou três argumentos principais no ensaio. Primeiro, os escritores poderiam incorporar o método de investigação científica do fisiologista francês Claude Bernard em suas obras. Bernard afirmou que experimentos controlados poderiam provar ou refutar uma hipótese sobre os fenômenos testados.

Zola postulou que um escritor poderia usar essa mesma abordagem, com os personagens funcionando como fenômenos. Em segundo lugar, Zola disse que esse método experimental separa o naturalismo do realismo e do romantismo. Por fim, Zola apresentou um argumento contestando as afirmações de seus críticos de que seu trabalho era imoral e ofensivo.

A série de 20 romances de Zola, “Les Rougon-Macquart”, escrita entre 1871 e 1893, é uma das contribuições mais significativas para a literatura naturalista. Centra-se na vida de duas famílias francesas fictícias – uma privilegiada, a outra destituída – ao longo de cinco gerações. Ambiente, hereditariedade e os desafios da vida no Segundo Império Francês acabam levando cada família à ruína.

O autor americano Frank Norris foi outra figura formativa no movimento do naturalismo. Como Zola, ele via seus personagens como experimentos; ele os expôs a certos estímulos ou fenômenos e registrou suas reações.

O resultado mistura literatura e ciência, casando o dom de um escritor para caracterizar e descrever com as observações desapegadas de um cientista sobre hipóteses comprovadas ou refutadas. Stephen Crane, autor de “Emblema Vermelho da Coragem” e outras obras, empregou uma abordagem semelhante e contribuiu muito para o cânone do naturalismo americano.

O naturalismo como seu próprio movimento literário distinto terminou em grande parte por volta de 1900, quando a revista americana “The Outlook” publicou um obituário irônico para o naturalismo. A publicação chegou a considerar os esforços de Zola para criar uma forma de literatura científica um fracasso total.

Essa postura é discutível, especialmente porque inúmeros escritores desde 1900 infundiram em suas obras elementos fortemente naturalistas. Ernest Hemingway, Edith Wharton e Jack London são apenas alguns que levaram o naturalismo ao século XX.

Émile zola, em 1902.
Émile Zola, em 1902 (fonte: Wikipédia)

Caracteristicas das Obras Naturalistas

A função do naturalismo é apresentar o mundo como ele é – sem embelezamento, idealização ou romantismo – e ilustrar o domínio das condições ambientais na vida humana e nos personagens individuais. Essa perspectiva permite ao autor comentar os lados mais sombrios da natureza humana.

Assuntos como pobreza, doença, racismo e prostituição muitas vezes abrem caminho para o naturalismo literário. O ponto de vista corajoso da experiência humana às vezes pode ser sombrio, mas os autores escrevem dessa maneira a serviço de um propósito maior. Eles visam melhorar a condição do mundo, destacando as circunstâncias terríveis e incontroláveis com as quais as pessoas comuns normalmente vivem.

Os principais elementos das obras naturalistas são determinismo, objetividade, pessimismo, cenário e reviravoltas na trama. Entre as principais características estão:

Determinismo

Esta é a crença filosófica de que as causas externas são responsáveis por todos os eventos na vida de um indivíduo. Destino, natureza ou hereditariedade explicam por que a jornada de um personagem se desenvolve dessa maneira. Forças além da vontade e do controle predeterminam tudo.

Por exemplo, no conto de William Faulkner “Uma Rosa para Emily”, a insanidade do personagem central é uma conclusão precipitada. É um subproduto natural do controle opressivo que seu pai exercia sobre ela, seu relacionamento co-dependente com ele e o isolamento auto-imposto que ela manteve por toda a vida. Fica claro para o leitor que nunca houve esperança para Miss Emily – seu destino foi determinado por suas circunstâncias.

Objetividade

Os escritores naturalistas mantêm uma objetividade em suas histórias. Eles se distanciam dos componentes emocionais da história e servem mais como observadores imparciais do que acontece. Ao discutir as emoções, o foco está nas emoções primitivas de sobrevivência, geralmente em um mundo hostil.

Em “Emblema Vermelho da Coragem”, Crane descreve uma cena de batalha com um toque legal:

Os homens caíram aqui e ali como fardos. O capitão da companhia do jovem havia sido morto no início da ação. Seu corpo estava estendido na posição de um homem cansado descansando, mas em seu rosto havia um olhar surpreso e triste, como se ele pensasse que algum amigo havia lhe feito mal.

Em vez de atrair o foco dos leitores para as realidades visceralmente perturbadoras da batalha, ele adota uma abordagem quase indiferente para retratar a cena. A imagem que evoca é comum – descrevendo homens mortos como fardos ou descansando – em vez de violentos.

Pessimismo

Os autores de obras naturalistas geralmente possuem uma visão de mundo cínica ou fatalista, na qual não veem seus personagens como tendo muito poder sobre suas vidas ou decisões. Esses escritores veem a vida como uma perspectiva de copo meio vazio.

Um exemplo disso aparece no clássico romance de aventura de Jack London, “Chamado Selvagem (The Call of the Wild)”, no qual o personagem central é um cachorro chamado Buck. “Assim, como sinal de como a vida é uma marionete”, escreve London, “a antiga canção surgiu através dele e ele voltou a ser seu”. Chamar a vida de “coisa de marionete” é uma maneira pessimista de ver a experiência humana – ou animal.

Trailer da adaptação cinematográfica de “Chamado Selvagem”

Contexto

O naturalismo coloca grande ênfase no impacto do meio ambiente, de modo que a localização tende a desempenhar um papel significativo nessas obras. O cenário muitas vezes se torna um personagem em si.

Este é o caso do romance “McTeague: A Story of San Francisco”, de Frank Norris. A queda do personagem-título e de sua esposa se desenrola no cenário da Califórnia, de São Francisco ao Vale da Morte, onde os sonhos despedaçados dos mineiros em busca de ouro refletem os sonhos despedaçados dos McTeagues.

Reviravolta no roteiro

Muitas obras naturalistas incluem uma reviravolta na história ou algum tipo de soco intenso no final da história. Isso ressalta a futilidade da luta do personagem e a qualidade fixa de seu destino. Por exemplo, o romance de Kate Chopin, “The Awakening, termina com Edna Pontellier se afogando no Golfo do México depois de se rebelar contra o papel social atribuído a ela.

Naturalismo no Brasil e Principais Obras

O naturalismo foi um movimento literário e artístico que teve grande influência no Brasil durante o final do século XIX e início do século XX. Ele surgiu como uma extensão do Realismo, que buscava retratar a realidade de forma objetiva e crítica. No contexto brasileiro, o naturalismo teve início na década de 1880 e se desenvolveu até as primeiras décadas do século XX.

Os escritores naturalistas brasileiros buscavam retratar a realidade social de forma crua e objetiva, abordando temas considerados tabus para a época, como prostituição, violência, pobreza, doenças, entre outros. Eles buscavam explorar os aspectos mais sombrios e instintivos da natureza humana, utilizando uma abordagem científica e determinista.

Uma das obras mais importantes do naturalismo brasileiro é “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890. O livro retrata a vida em um cortiço no Rio de Janeiro, apresentando uma visão crítica da sociedade da época e dos vícios e paixões humanas. A obra é considerada um marco do naturalismo no Brasil.

Outros autores naturalistas de destaque foram Adolfo Caminha, com o romance “O Bom Crioulo” (1895), que aborda a temática da homossexualidade e do preconceito racial, e Júlio Ribeiro, com o livro “A Carne” (1888), que trata da liberdade sexual feminina.

Além da literatura, o naturalismo também influenciou outras formas de expressão artística, como a pintura e o teatro. Na pintura, destacou-se o artista brasileiro Henrique Bernardelli, que retratava cenas do cotidiano de forma realista e objetiva. No teatro, o naturalismo foi representado pelo grupo Os Comediantes, liderado por Artur Azevedo.

O naturalismo no Brasil teve um papel importante na renovação da literatura e na abordagem de temas até então considerados polêmicos. Com suas representações cruas da realidade, os escritores naturalistas buscaram mostrar a sociedade brasileira em sua complexidade e contradições, contribuindo para a construção de uma identidade literária nacional mais crítica e realista.

“O Cortiço” – Aluísio Azevedo (1890)

“O Cortiço” é considerado o principal romance naturalista brasileiro. A história se passa em um cortiço no Rio de Janeiro, retratando a vida dos seus moradores e as relações complexas entre eles. Através de uma narrativa realista e crua, Aluísio Azevedo aborda temas como a exploração da mão de obra, a prostituição, o alcoolismo, a miséria e a violência, mostrando o lado sombrio da sociedade da época.

O Cortiço em Audiolivro

“O Mulato” – Aluísio Azevedo (1881)

Publicado antes de “O Cortiço”, “O Mulato” é considerado um marco do naturalismo no Brasil. A obra aborda o tema do preconceito racial e a luta pela aceitação social de um personagem mestiço, Raimundo. O romance expõe as tensões raciais e a hipocrisia da sociedade brasileira do século XIX, destacando a influência da hereditariedade e do meio ambiente na formação da identidade do protagonista.

“A Carne” – Júlio Ribeiro (1888)

“A Carne” é uma obra polêmica e impactante do naturalismo brasileiro. O romance aborda a questão da liberdade sexual feminina e a busca da protagonista, Lenita, por autonomia e realização pessoal. Júlio Ribeiro retrata a figura da mulher transgressora para a época, explorando a temática do adultério, da sensualidade e das relações amorosas de forma crua e provocativa.

“O Bom Crioulo” – Adolfo Caminha (1895)

Considerada uma das primeiras obras a abordar abertamente a homossexualidade na literatura brasileira, “O Bom Crioulo” narra a história de Amaro, um marujo negro que se apaixona por Aleixo, um jovem branco. A obra explora os conflitos internos de Amaro, as convenções sociais e a rejeição da sociedade diante do amor entre dois homens.

FAQ Rápido

O que é o naturalismo?

O naturalismo é um movimento literário e artístico que busca retratar a realidade de forma objetiva e crua, explorando os aspectos mais sombrios e instintivos da natureza humana.

Quais são as principais características do naturalismo?

O naturalismo apresenta características como a ênfase na hereditariedade e no meio ambiente como determinantes do comportamento humano, a abordagem científica e determinista, e a representação crua da realidade social.

Quais são algumas das obras mais importantes do naturalismo no Brasil?

Algumas das principais obras naturalistas brasileiras são “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, “O Mulato” também de Aluísio Azevedo, “A Carne” de Júlio Ribeiro e “O Bom Crioulo” de Adolfo Caminha.

Quais são os temas abordados no naturalismo?

O naturalismo aborda temas como pobreza, violência, prostituição, doenças, preconceitos sociais e raciais, questões de gênero, além de explorar a influência do ambiente e da hereditariedade na vida dos personagens.

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